A Bateria Musical e os Ritmos Afro-brasileiros


A BATERIA BRASILEIRA

A bateria brasileira deve-se muito ao samba-jazz dos anos 1950. O samba originou-se dos antigos batuques trazidos pelos africanos que vieram como escravos para o Brasil. Esses batuques estavam geralmente associados a elementos religiosos que instituíam entre os negros uma espécie de comunicação ritual através da música e da dança, da percussão e dos movimentos. O professor Luiz Renato da Silva. ROCHA [1] afirma que especialmente devido às influências norte-americanas trazidas pelo jazz, e no desenrolar da história, o cenário musical brasileiro por ser “atrasado” em relação à evolução dos países mais desenvolvidos, e dada a necessidade dos músicos brasileiros de realizar deslocações graduais musicalmente, houve um período importante de mesclas de estilos que deu início a uma nova era de músicos bateristas, responsáveis por marcar essa época, sendo eles: Dom um Romão (1925 – 2005), Edson Machado (1934 – 1990), Milton Banana (1935 – 1999), Wilson das Neves (1936 – 2017), Rubinho Barsotti (1932), Hélcio Milito (1931 – 2014) e Hércules (1938) e outras grandes peças importantes da geração de bateristas que deram origem a um novo estilo de conduzir o instrumento, e devido às influências norte-americanas jazzísticas e as dos ritmos afro-brasileiros já enraizados na cultura, futuramente também fora implementada no repertório de standards do estilo americano e espalhando para o mundo.

A partir desse contexto muitos outros músicos e especialmente os bateristas adotaram os métodos de ensinamentos trazidos pelos antigos das gerações passadas, dando continuidade e contribuindo para a pesquisa que consequentemente atua diretamente nas transformações que acompanhamos na atualidade. Hoje em dia temos inúmeros ícones do elenco nacional de músicos bateristas que são reconhecidos internacionalmente por sua originalidade e complexidade no estilo de se tocar bateria brasileira: Kainã do Jeje (Orkestra Rumpiless), Vinicius Lordelos (1988), Pupillo (Nação Zumbi), Edu Ribeiro (1975), Kiko Freitas (1969), Cuca Teixeira (1972), Celso de Almeida (1960), etc.        
SET CLÁSSICO DE BATERIA










BREVE HISTÓRIA DO CANDOMBLÉ


O candomblé é uma religião afro-brasileira que possui raízes africanas que foram trazidas para o Brasil no período da escravidão. Devido ao fato dos negros serem proíbidos de expressar a sua fé, alguns traços da religião católica foram inseridos em meio as suas crenças, no intúito de torná-las mais “aceitáveis” para o período em que viviam, dando origem dessa forma a Umbanda, que apesar de parecida, possui diferenças significativas e é originalmente brasileira. Ambas as religiões são mantidas, através de suas tradições, até os dias atuais.
A música, a dança, as vestimentas e a culinária são características culturais que fazem parte da religião, e o culto pelos orixás é uma das principais atividades em suas festas e rituais. Cada orixá representa uma força da natureza e possui um toque de tambor específico para homenageá-los. Para tornar-se um ogan, percussionista responsável pela execução dos ritmos, que inclusive é uma função majoritariamente masculina, é necessário um bom período de tempo frequentando a religião, aprendendo a respeito de cada orixá e aprendendo cada ritmo com muita seriedade e devoção.
Apesar de haver uma infinidade de ritmos, nesta pesquisa serão abordados o maculelê, muito comum na capoeira, o alujá, que é um ritmo tocado em homenagem à xangô, orixá que representa a força dos raios e dos trovões, e o famoso maracatu. O Alujá vem com um toque mais rápido e quente que o ijexá. A instrumentação utilizada é sempre a dos 3 atabaques com medidas e afinações diferentes, sendo eles: rum, rumpi e lê, com acompanhamento do agogô e do xequerê. Em alguns ritmos os atabaques são tocados apenas com as mãos, como por exemplo o ijexá, e em outros são utilizados os aguidavis, como é o caso do alujá.
INSTRUMENTAÇÃO


Cada atabaque possui uma polegada, tamanho, sonoridade e função musical diferente dentro do contexto dos ritmos do candomblé, sendo divididos da seguinte maneira:

Rum: Maior polegada e sonoridade mais grave, possui uma linha improvisada.
Rumpi: Tamanho e sonoridade média.
: Menor polegada com sonoridade mais aguda.
Os atabaques, de acordo com o toque de cada orixá, podem ser tocados somente com as mãos ou também com o aguidavi em apenas uma ou em ambas as mãos, que é uma espécie de vareta que emite som agudo e staccato quando percutido na pele do tambor. 


Os instrumentos utilizados para o acompanhamento dos atabaques são o agogô, composto por uma campana grave e outra aguda, que executa uma espécie de melodia rítmica muito características nos ritmos afro-brasileiros, e o xequerê, também conhecido como agbê ou abê, instrumento de cabaça envolto de uma renda com miçangas, que produz uma sonoridade aguda, responsável pela subdivisão do ritmo.

AGOGÔ XEQUERÊ

MANIFESTAÇÕES CULTURAIS AFRO-BRASILEIRAS

Na diáspora dos povos africanos, juntaram-se os costumes e tiveram que se adaptar aos moldes de comportamento da época, do local, contribuindo para a formação da atual conjuntura da cultura brasileira, junto da chegada dos europeus, e que devido ao sincretismo houve uma fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas com reinterpretação de seus elementos na filosofia. Formaram sínteses razoavelmente equilibradas e com elementos díspares, originários de diferentes visões do mundo, de doutrinas filosóficas distintas, que outrora dariam origem a um conjunto de Manifestações Culturais, influências diretas da herança africana desde os tempos do Brasil Colônia. Os estados brasileiros que foram mais influenciados pela cultura africana tanto pela região que favorecia a chegada dos colonizadores após o ciclo da cana de açúcar na região nordeste do país, foram os estados da Bahia, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Os africanos trazidos contra a sua vontade, manifestaram seus sentimentos de saudades - dando o exemplo da capoeira - a forma de se exercitar e se mantendo ativo, manifestaram seu lazer dentro dessas situações, resistências da cultura africana ou até mesmo o renascimento delas em solo brasileiro.

Capoeira Angola Segundo Mestre Pastinha - Youtube

Maculelê - Espetáculo Ayeye (Nova Era)


METODOLOGIA

A metodologia é um corpo de regras e diligências estabelecidas para realizar uma pesquisa; método. Para cada gênero musical ou finalidade artística existe por trás, um empirismo do aprendizado que se adquire através da vivência. O ensino é transmitido de diferentes maneiras. No caso das tradições afro-brasileiras, a metodologia é a oralidade, a familiarização dos ritmos e os costumes. Na bateria, existem passo-a-passos em forma de exercícios teóricos e práticos, para obter bons resultados, concretos, em busca da fluidez e para a execução de determinados ritmos ou estilos, se fazendo necessário que tenhamos uma base teórica para o melhor desenvolvimento da versatilidade e aprofundamento.

Os métodos de adaptações de ritmos afro-brasileiros para a bateria é um assunto da bateria moderna comparado aos métodos jazzísticos. Na atualidade existem inúmeros métodos de ritmos brasileiros para a bateria, mas o afro-brasileiro não é tão comum, são apenas alguns bateristas que carregam essa cartilha de versatilidade, justamente pela essência desses ritmos serem originalmente tocados em atabaques, chocalhos e claves, sendo que, cada instrumento é tocado por uma pessoa diferente que executa um dos elemento que compõe o ritmo como um todo.
A pesquisa foi baseada no método "O Baterista Versátil de Vinícius Lordelos [2], que se dedicou a pesquisar pelos ritmos afro-brasileiros, cubanos, etc. Vinícius iniciou seus estudos musicais de maneira informal em 1997. Estudou no Instituto de Bateria Vera Figueiredo no ano de 2006 e no Conservatório de Tatuí no ano de 2007. Em 2009 foi finalista do “Batuka International Drum Fest”, maior evento do gênero no Brasil e em 2013 foi professor de bateria no 32° Festival de Música de Londrina. Conta com mais de 15 anos de experiência no ramo didático. Foi professor em escolas particulares de música, em colégios estaduais e em projetos sociais na cidade de Londrina - PR. Atualmente reside em São Paulo - SP atuando na cena como músico , freelancer e professor.
Adaptações dos ritmos afro-brasileiros para a bateria
“O Baterista Versátil - Vinícius Lordelos (pré-edição)"

Maculelê

Segundo Amaury Lagartixa [3], o Maculelê vem da África para o Recôncavo Baiano, foi enredado através do Mestre Popó e do Mestre Vavá em Santo Amaro da Purificação. Hoje o maculelê se mantém preservado graças à sua incorporação juntos dos capoeiras, que incluíram a dança nas suas apresentações, em batizados e festas populares. Faz parte do folclore brasileiro, e deve ser preservado como patrimônio cultural imaterial, assim como a capoeira. Mantido e respeitado como tradição pelos estudantes, praticantes e estudiosos. Existem lendas que a dança foi trazida por ancestrais africanos ou criado por nativos indígenas. A beleza do maculelê traz em si os traços da miscigenação cultural de um país.

Lordelos definiu em suas pesquisas que o ritmo Congo de Ouro é tocado predominantemente no Maculelê, assim como o Barravento, é um ritmo afro brasileiro originalmente tocado em atabaques. Na bateria representamos os toques abertos, que possuem sonoridade mais grave, através do bumbo, e os slaps (tapas), que possuem sonoridade mais aguda na caixa.   Vídeo 1 - João Bolzan Baterista (Maculelê)


Alujá
O Alujá também é um ritmo afro brasileiro que possui uma estrutura muito parecida com a do Maculelê. Sua principal diferença está na subdivisão, que é executada em 3 colcheias por tempo ao invés de 4 semicolcheias (ou 2 colcheias). O Alujá originalmente também é tocado em atabaques, mas neste caso o improvisador toca o atabaque grave (Rum) com as mãos e a base é feita nos outros dois atabaques (Rumpi e Lê) com a utilização do aguidavi.

Vídeo 2 - João Bolzan Baterista (Alujá)


Assita: Playlist de Ritmos Afro-brasileiros

BREVE HISTÓRIA DO MARACATU

O Maracatú é considerado como uma das manifestações culturais mais antigas do Brasil, composto por ritmo, dança, vestimentas e ritual de cunho religioso com raízes africanas e desenvolvido no estado de Pernambuco. Existem duas vertentes, que se diferem através do “baque”, sendo eles o Maracatú Nação (Baque virado), que acontece na capital em Recife, e o Maracatú Rural (Baque Solto), que acontece no interior do estado, mais especificamente na cidade de Nazaré da Mata. Seus instrumentos característicos são: 


Alfaia: Tambor grave tocado com duas baquetas grandes com pontas de madeira. Suas linhas são responsáveis pelo baque e pela identidade de cada bloco.
Tarol: Similar à caixa da bateria, é tocada também com duas baquetas. Utilizam-se bastante os rufos de pressão, que é bastante característico no estilo. 
ALFÁIA TAROL

Xequerê / Abê / Agbê: Instrumento composto por uma cabaça envolto em uma trama com miçangas. Responsável, assim como o tarol, pela subdivisão do rítmo.

Gonguê: Espécie de cowbell grande e grave, responsável pela melodia rítmica.

XEQUERÊ                                                     
GONGUÊ

VISÕES DO MARACATU (EDU RIBEIRO) 

Neste tópico iremos abordar as Visões do Maracatu do renomado baterista brasileiro Edu Ribeiro. Ele acompanhou e gravou com um número enorme de músicos e cantores como Chico Pinheiro, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Brad Mehldau, Milton Nascimento, João Bosco, Amilton Godoy, Toquinho, entre muitos outros. Dentre essas gravações, os álbuns Randy in Brazil (Randy Brecker), Dance Of Time e Made In Brazil (Eliane Elias) também foram vencedores de Grammy em diversas categorias.

  

As Visões do Maracatu de [4] Edu Ribeiro estão contidas no seu curso Edu Ribeiro Music Workshop Masterclass, pioneiro no ensino EAD no Brasil e já atendeu centenas de alunos com a realização de eventos ao vivo e online https://www.eduribeiro.mus.br/.      
Veja a seguir as Visões do Maracatu na bateria de Edu Ribeiro e percebam as dinâmicas e possíveis variações para aplicação desse ritmo em diferentes possibilidades sonoras, utilizando apenas aros e pratos, adicionando bumbos e tons e por fim carregando completamente a levada aumentando gradativamente o nível de dificuldade da execução, muito similar a metodologia de Vinícius Lordelos, porém já em forma de “peça” musical, cada um com a sua metodologia. Uma referência musical que carrega essa levada de bateria, é a música do “Chico Pinheiros - Tocador de Violão" (2007), porém muitos outros músicos bateristas também já utilizaram o Maracatu em suas canções. Vídeo 3 - João Bolzan Baterista (Maracatu)
Referencias Musicais do ritmo Maracatu
Maracatu - Alceu Valença - (Ao vivo) Em todos os sentidos


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A linguagem africana na música brasileira, é uma herança deixada pelos afro-brasileiros. A cultura africana influenciou com inúmeros ritmos, que formam a base de boa parte da MPB. Gêneros musicais com origens coloniais e influências africana, como o lundu, terminaram dando origem à base rítmica do maxixe, samba, choro, bossa-nova e vários outros gêneros musicais originalmente brasileiros em sua formação contemporânea com influências do erudito, e atualmente existem grupos musicais no Brasil, que representam o estilo, e propagam para o mundo com fusões de ritmos afro-brasileiros e outros ritmos, como a Orquestra Afro-brasileira, Orkestra Ruimpilezz e outros. São origens que essas obras carregam em sua essência. um enredo que ilustra a história do Brasil, assim como na Colômbia, música afro-colombiana, afro-cubana, afro-americana, afro-europeias, etc.

No Brasil, todas essas influências e inclusive indígenas foram introduzidas direta ou indiretamente na forma original de se pensar música brasileira abrindo portas para novas ideias que influenciaram o mundo com a sua magia envolvente, mantendo viva as tradições deixadas pelos nossos ancestrais formando a identidade cultural de um país no decorrer da sua história.

Referências

[1] Luiz Renato da Silva. ROCHA, Roger da Silva. ROCHA, Rafael da Silva. "A importância do jazz para a bateria brasileira" (2020).

[2] Método - O Baterista Versátil (pré-edição) - VINÍCIUS LORDELOS (2020). [3] Amaury José Semedo Neto - CONTRAMESTRE DE CAPOEIRA ANGOLA do Cento Cultural Besouro Cordão de Ouro de São José do Rio Preto.


[4] EDU RIBEIRO Music Workshop Masterclass https://www.eduribeiro.mus.br/.









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