Entre Amigos - “O ingrediente que não pode faltar”



Arte e Cultura - Música
Prêmio NELSON SEIXAS 2022, São José do Rio Preto, São Paulo.
Agradecimentos

Antes de começar, gostaria de demonstrar minimamente a minha gratidão ao Mestre Meinha dos Santos, de São Paulo; ao contramestre Amaury Lagartixa e a todos os convidados e alunos do Centro Cultural Besouro Cordão de Ouro pela participação essencial na pré-produção do material auditivo gerado nesta edição. E também agradecer à Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto (SP) pela iniciativa que estimula diversos artistas independentes da região.

Introdução

Na capoeira, a música é orgânica e não necessita de um produtor ou uma caixa de som ou equipamentos elétricos porque ela funciona de maneira acústica. A música na capoeira é empírica e está intrinsecamente ligada à cultura popular, como um núcleo que vem carregado de substâncias chaves, solidamente necessárias para que uma roda de capoeira aconteça. A musicalização na capoeira angola determina o ritmo e o estilo do jogo que é jogado durante uma roda. Esta é composta de instrumentos, jogadores(as) e de cantigas, podendo o ritmo variar de acordo com o toque bem lento (Angola) a bastante acelerado (São Bento Grande) sem contar a riqueza de informações contidas nas poesias com relação à história do Brasil, fundamentadas na prática da arte em questão.


Na indústria musical, um produtor musical ou produtor discográfico é o termo que designa uma pessoa responsável por completar uma gravação e/ou reprodução sonora para que esteja pronta para o lançamento. É também esta pessoa que controla as sessões de gravação, ensaia e guia os músicos e cantores e faz a supervisão do processo de mixagem e de masterização de áudio. Também são considerados produtores musicais aqueles que produzem instrumentais originais (não necessariamente remix). 

Em proposta ao edital, o proponente deste projeto carrega o desafio de controlar a sessão de gravação que foi realizada no formato ao vivo em uma roda de capoeira angola, com o objetivo de gerar um material auditivo para posteriormente passar pelos processos de edição e mixagem, resultando em um "esboço" em formato de álbum, original e inédito para o Centro Cultural Besouro Cordão de Ouro e para a cidade de São José do Rio Preto.


Existem cantigas que são lembradas nas rodas, pelos mestres e mestras, de cantadores(as) que têm mais de setenta anos, e a maioria delas se tornaram canções de domínio público. Domínio público no direito da propriedade intelectual é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, invenções e outros) de livre uso comercial, porque não são submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica, mas que podem ser objeto de direitos morais. 

Os direitos do autor não são eternos. Via de regra eles expiram em algumas décadas após a sua morte, passando, assim, para o domínio público. Quando o autor não tem mais esse direito, existe a autorização de uso livre ao público em geral, o que eles chamam de domínio público. Existe até uma expressão para dizer que uma obra pode ser reproduzida, distribuída, traduzida, publicada ou adaptada sem a necessidade de autorização: “cair em domínio público”, muita das vezes ao esquecimento ou ao benefício alheio vantajoso, outras em formas de releituras belíssimas.

Como a própria expressão sugere, domínio público é quando uma música ou obra artística pode ser utilizada por qualquer cidadão que queira fazer adaptações, gravá-la, divulgá-la ou até mesmo lançar uma peça de teatro, sem custos referentes ao Direito de Propriedade Intelectual.

Isso porque a lei diz que qualquer obra entra em domínio público após 70 anos da morte do autor ou dos autores, sempre valorizando a idade do mais novo. Um exemplo é Pixinguinha que morreu em 1973, aos 75 anos, portanto suas obras ainda estão protegidas e, certamente, familiares recebem pelos Direitos Autorais. Depois que o prazo terminar, suas obras se tornarão domínio público, podendo ser utilizadas livremente por qualquer pessoa.

A música "Marinheiro Só" é um bom exemplo de cantiga que não se sabe com certeza quem é o(a) compositor(a). É conhecida na MPB pela versão de Caetano Veloso e na Capoeira Angola pelo Mestre Boca Rica e Mestre Bigodinho.

"A origem da música veio do próprio folclore brasileiro, é uma cantiga de roda cantada por pescadores, marinheiros e camponeses. Além disso, a música passa uma mensagem forte através da letra, a metáfora faz analogia com a luta da vida cotidiana e a superação das dificuldades e das tempestades que nos afligem."

Formas, estruturas e poesias


Muitas cantigas são na forma de pequenas estrofes intercaladas por um refrão, enquanto que outras vêm na forma de história (ladainhas), entre outras. As canções de capoeira têm assuntos dos mais variados, algumas são sobre histórias de capoeiristas famosos, outras podem falar do cotidiano de uma lavadeira, às vezes encaixa com o que está acontecendo na roda, outras vezes são sobre a vida ou um amor perdido, outras ainda são alegres e falam de coisas tolas, cantadas apenas por diversão. Os capoeiristas mudam o estilo das canções frequentemente de acordo com o ritmo do berimbau. Desta maneira é, na verdade, a música que comanda a capoeira, e não só no ritmo mas também no conteúdo. Além das cantigas, os toques são muito importantes, principalmente na Capoeira Angola. A letra é constantemente usada para passar mensagens para um dos capoeiristas, na maioria das vezes de maneira velada e sutil.

Instrumentação




Os instrumentos são tocados numa linha chamada bateria. O principal instrumento é o berimbau, que é feito de um bastão de madeira envergado por um cabo de aço em forma de arco e uma cabaça usada como caixa de reverberação. O berimbau varia de afinação, podendo ser o Berimbau Gunga (mais grave), Médio (médio) e Viola (mais agudo). Os outros instrumentos são: pandeiro, atabaque, caxixi e com menor frequência o reco-reco e o agogô, isso varia de acordo com a casa.

Uma característica que distingue a capoeira de outras lutas é o fato de a mesma ser acompanhada por música. É a música que decide o ritmo e o estilo do jogo, é praticada em um círculo de pessoas onde a mesma é jogada, determinando a sua importância. 

Evidenciando a tradição do mestre de bateria do grande Vicente Ferreira Pastinha, Mestre Gato Preto e do grande Mestre Ananias que tanto contribuiu para o formato moderno da musicalização presente na capoeira angola que é matéria que precisa dar a devida importância.

É importante dizer que, mesmo que seja tudo capoeira, existem algumas vertentes que variam de casa para casa, fruto de transformações sociológicas marcadas pelo tempo, de forma positiva, no período que foi evidenciada de fato a prática.

Os toques mais utilizados dentro de uma roda são: toque de Angola, toque de São Bento Grande e toque de São Bento Pequeno. São toques que os instrumentos mais importantes da bateria de capoeira - os berimbaus - fazem e determinam para determinar a intensidade ou estilo do jogo.



Alguns dos papéis da musicalidade presente nas rodas da capoeira potencializam as práticas e tornam-se a principal condução do enredo argumentativo da ideia, da formação de uma roda. Essas rodas de capoeira expressam diferentes espaços-tempo, que são abordados de acordo com as questões problematizadas na execução do mesmo. Recorre-se às noções históricas, situações de perigo ou algum acontecimento instantâneo como, por exemplo, um jogo bonito acontecendo, ou um jogo duro; a presença de crianças; o "adeus, adeus" para finalizar a roda, além de juntamente se fazer necessário como saberes centrais da atuação dos(as) educadores(as) da arte, ou seja, não basta saber jogar. Analisa-se a capoeira como um campo de poder, definido a partir de regras, hierarquias e jogos de força e habilidade, nos quais a musicalidade é um dos elementos centrais para que tudo aconteça.




Certeza que não dá pra falar sobre tudo sem descrever uma pancada de parágrafos, discutir capoeira angola é muito difícil, ainda mais quando o assunto é a musicalização presente. Conseguir unir tudo isso em uma coisa só é uma fria gigante, mas me sinto responsável por compartilhar de modo singular essa breve visão juntamente com o conhecimento adquirido, por mínimo que seja, na capoeira em si, no momento em que vivemos com toda essa facilidade que a tecnologia de softwares (ferramentas de produção) oferecem na atualidade em um mundo fonográfico altamente envolvente e que outrora num passado não tão distante, nem era possível devido ao difícil acesso. Ainda mais sobra aquela responsabilidade de representar um coletivo de capoeira angola passando uma breve visão para quem não pratica mas se interessa em assuntos culturais e para poder enxergar as coisas sob um olhar mais simples.


Além disso, ter a oportunidade de me aprofundar nessas questões através do Prêmio Nelson Seixas, edital de fomento à cultura de São José do Rio Preto, São Paulo, só me faz aumentar a verdadeira riqueza: o conhecimento. 


Tentando não ser muito enrolado no material e nem muito místico, parece que não faz muito sentido descrever altas teses sobre esses assuntos, justamente porque, que nem dizia Lenine “só quem vai atrás é capaz de entender toda essa magia” em “Que baque é esse?” no álbum "O dia em que faremos contato" (1997), também pela tradição ter se formado na base da oralidade, no boca a boca.


Vamos começar com a apreciação do álbum e tentar captar algo que falei por aqui. A proposta foi para captar o áudio de uma roda de capoeira angola ao vivo e dissertar sobre esse "ingrediente" tão importante. Por fim, eu quis descrever levando mais pro lado da importância que a música tem sobre a prática da capoeira no geral, dentro da visão de um aluno praticante e músico produtor unindo literalmente o "artifício com a artimanha".






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